Série documental “Quando a Fé Caminha”, acompanhou a comitiva dos carreiros de Orizona em 2025 durante mais de 200 quilômetros até a chegada a Trindade, na Festa do Divino Pai Eterno. Durante 16 dias, a equipe da Skambau Produções e do Instituto Skambau acompanhou uma das mais tradicionais peregrinações do estado de Goiás. A série registra a jornada dos carreiros de Orizona até Trindade, revelando histórias de devoção, resistência, memória e pertencimento.
Idealizada e dirigida por Manoela Barbosa, historiadora, doutora em Ciências Ambientais, pesquisadora e gestora de projetos com raízes familiares em Orizona, a produção é composta por 11 episódios. Os registros audiovisuais foram realizados por Roger Martins, produtor cultural, cineasta preto e aquilombado e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio (Promep-UEG).
Pela primeira vez, uma equipe audiovisual acompanhou integralmente a jornada dos carreiros de Orizona até Trindade, registrando os desafios, encontros, celebrações e momentos de fé vividos ao longo de toda a peregrinação.
Responsável pelo registro das imagens da série, Roger Martins afirma que, se existe uma palavra capaz de definir o que significa ser carreiro em Orizona, essa palavra é fé. “Simplesmente não consigo explicar com palavras o tamanho da devoção que esses carreiros têm, da força, do acolhimento, da união e do amor. Estão há décadas na jornada, em uma prática passada por gerações, marcada por laços familiares e muita, muita fé”, destaca.
Para Manoela Barbosa, a série representa um compromisso com a memória, a identidade e o patrimônio cultural goiano. “Esta série nasce do afeto, do pertencimento e da responsabilidade de registrar uma tradição que atravessa gerações e faz parte da minha própria história familiar. Meu avô paterno, Joaquim Barbosa, teve relação com essa cultura, e foi a partir das minhas raízes em Orizona e do trabalho desenvolvido junto aos carreiros nos últimos sete anos que construímos uma relação de confiança capaz de tornar este registro possível. Documentamos uma caminhada, mas também buscamos revelar as pessoas, as memórias, os saberes e a fé que mantêm esse patrimônio vivo. Trata-se de uma herança coletiva que merece ser conhecida, reconhecida e preservada.”
A diretora destaca ainda a experiência de imersão vivida pela equipe durante a produção. “Durante 16 dias, Roger, cineasta e membro da nossa equipe, caminhou junto aos carreiros. Compartilhou a poeira da estrada, o silêncio das madrugadas, os desafios do percurso, as histórias de família e os momentos de oração. Foi acolhido e integrado à comitiva. O resultado é uma série construída com confiança, respeito e admiração por quem mantém viva essa manifestação cultural. Os carreiros carregam memórias, modos de vida, valores comunitários e uma das expressões mais potentes da cultura popular goiana. Registrar essa jornada é contribuir para que futuras gerações compreendam a riqueza humana, cultural e espiritual existente por trás desse patrimônio. Como mulher, pesquisadora e realizadora audiovisual com raízes em Orizona, sinto que este é um dos trabalhos mais importantes da minha trajetória. Existe uma responsabilidade muito grande quando contamos a história da nossa própria comunidade. Por isso, cada episódio foi construído com escuta, sensibilidade e compromisso com a verdade dessas pessoas e dessa caminhada.”
Ao longo dos episódios, o público acompanha os bastidores da peregrinação, os preparativos dos carros de boi, os pousos realizados ao longo do percurso, as histórias de famílias que mantêm esse patrimônio cultural há gerações e os desafios enfrentados durante a jornada até Trindade.
Entre os personagens retratados está Márcio Caixeta, pequeno produtor rural e presidente da Acaori. Diferentemente de muitos carreiros, sua história não começou acompanhando o pai ou o avô na atividade. “Muitos carreiros contam que ajudaram o pai ou o avô, mas comigo não foi assim. Acho que nasci com essa vontade. Desde menino eu tinha esse sonho. Na infância, eu tinha carneiros e meu pai chegou a comprar um carro para mim. Em 1987, adquiri um carro maior, puxado por bezerros, até chegar aos bois. É uma mistura de paixão e fé”, conta.
Toda caminhada começa antes da estrada.
Começa nos preparativos silenciosos, no cuidado com os bois, nas rodas dos carros, na organização da comitiva, nos abraços de quem fica e na emoção de quem parte para mais uma missão.
Neste episódio, voltamos ao início da jornada dos carreiros de Orizona rumo a Trindade. O nascer do sol ilumina os rostos, as cangas são colocadas, os carros ganham vida e as famílias se reúnem para viver mais um capítulo dessa tradição que atravessa gerações.
Entre os personagens está o Senhor Emídio, aos 90 anos, exemplo de fé, resistência e amor por essa caminhada. Avô de mulheres tão especiais para a nossa trajetória em Orizona, Nataly e Maryane, ele representa tantas pessoas que ajudaram a construir e manter viva essa história ao longo do tempo.
E talvez seja isso que mais nos emociona neste episódio: perceber que os carreiros não caminham sozinhos. Com eles seguem suas famílias, suas memórias, seus ancestrais, suas promessas e toda uma comunidade que se reconhece nessa jornada.
Neste fim de semana em que a comunidade celebra a Festa dos Carreiros de Orizona, em Taquaral, compartilhamos imagens registradas durante a comitiva de 2025. Um encontro entre lembrança e presente, entre quem já caminhou e quem seguirá caminhando.
Daqui a poucos dias, uma nova comitiva voltará a se preparar para partir rumo a Trindade. Mas hoje, o convite é para reviver, sentir e guardar mais um pedaço dessa história.
Nossa gratidão aos carreiros, às famílias, às comunidades rurais, aos amigos que abriram suas casas e seus corações e a todos que nos permitiram caminhar juntos. Porque, no fim, a fé caminha. E a memória também.
Existem sons que não passam pelo ouvido. Passam pelo coração. O cantar dos pássaros anunciando um novo dia. O ranger das rodas dos carros de boi na estrada. O som das botas encontrando o chão de terra. O mugido dos bois. As vozes dos companheiros de caminhada.
As rezas sussurradas. E os silêncios. Quem participa dessa jornada sabe que a fé também mora no silêncio.
No segundo episódio de “Quando a Fé Caminha”, partimos de Ubatan ao amanhecer para acompanhar mais um dia da travessia rumo a Trindade. Um caminho onde a natureza fala, a estrada ensina e cada som parece carregar a presença daqueles que vieram antes.
Há algo de ancestral nessa caminhada. Os mesmos caminhos percorridos por pais, mães, avós e bisavós. As mesmas preces repetidas geração após geração. Os mesmos carros de boi que seguem transportando pessoas e pertences, mas promessas, gratidão, esperança e histórias de milagres que atravessam o tempo.
Cada carreiro carrega um motivo para estar ali. Uma promessa alcançada. Um agradecimento. Um pedido. Uma cura. Uma proteção para a família. Uma conversa silenciosa com Deus. E, entre o canto dos pássaros e o barulho das rodas na estrada, cada um segue ouvindo aquilo que o chamou para caminhar.
Talvez seja por isso que essa tradição permaneça viva. Porque ela não é feita apenas de estrada. É feita de memória. De família. De fé. De gente que aprendeu a ouvir a natureza, respeitar o tempo e confiar que nenhum passo é dado sozinho.
Hoje, convidamos vocês a escutar os sons que embalam essa jornada e que despertam lembranças tão profundas quanto as raízes de uma árvore antiga.
Porque existem memórias que têm cheiro. Existem memórias que têm rosto. E existem memórias que têm som.
Qual som dessa jornada ativa as suas memórias e quais histórias gostaria de compartilhar com a gente?
Nem toda estrada é fácil. Há o peso da poeira, do sol, do asfalto, do cansaço do corpo e dos desafios que só quem caminha conhece. O que segue guiando cada passo é a fé.
Neste episódio, acompanhamos o olhar de Danilo Rosa e Castro sobre a jornada dos carreiros de Orizona rumo a Trindade. Um relato de gratidão ao Divino Pai Eterno, ao companheirismo construído na estrada e à certeza de que ninguém caminha sozinho.
No fim, quem guia o carro de boi é muito mais do que as mãos que seguram as rédeas.
As mãos contam histórias que o tempo não apaga. Aos 90 anos, o Senhor Emídio carrega nos gestos, no sorriso e no olhar uma vida inteira dedicada à fé, à família e à tradição.
Neste episódio, acompanhamos as marcas deixadas pelo tempo nas mãos de quem ajudou a construir caminhos, criar raízes e manter viva uma herança que atravessa gerações. São mãos que trabalharam a terra, conduziram carros de boi, fizeram preces e sustentaram histórias que hoje fazem parte da identidade cultural de Goiás e do Brasil.
Ao final, seguem os bois e a estrada. Mas ficam as memórias. Preservar essa tradição é também honrar aqueles que vieram antes de nós.
Enquanto os carros de boi seguem pela estrada, existem outras mãos sustentando a caminhada. Mãos que preparam o alimento, cuidam da casa, mantêm a produção, acolhem a família, organizam os pousos e elevam suas preces por aqueles que partiram rumo a Trindade.
Nesta terça, dia 16 de junho, uma nova comitiva inicia sua jornada e por isso dedicamos este episódio às mulheres que fazem parte dessa tradição. Às que caminham. Às que recebem. Às que cozinham. Às que esperam. Às que rezam. Às que seguem cuidando da vida para que a romaria continue existindo.
Em cada gesto, a presença silenciosa de mulheres que ajudam a manter viva a fé, a comunidade e a própria tradição dos carreiros. A romaria tem muitos caminhos e em todos há a participação das mulheres. Nossa homenagem às mães, esposas, filhas, avós e companheiras que, geração após geração, sustentam essa história com amor, trabalho, cuidado e devoção.
Neste episódio, acompanhamos as crianças que crescem entre os carros de boi, os pousos, as rezas, os encontros e as histórias compartilhadas ao longo do caminho.
São elas que observam, aprendem, brincam, caminham e ajudam a manter viva uma tradição que atravessa gerações. Entre olhares curiosos, sorrisos, pequenos passos, a poeira da estrada e o movimento das cidades, seguem construindo suas próprias memórias, carregando consigo os ensinamentos, os afetos e a fé de suas famílias.
A caminhada deixa marcas e algumas delas começam na infância.
A estrada exige muito de quem escolhe caminhar. Exige força para enfrentar o sol, a chuva, a lama, o asfalto e os longos dias longe de casa.
Exige mãos firmes para conduzir os bois, cuidar dos carros e seguir em frente mesmo quando o corpo pede descanso.
Neste episódio, acompanhamos a dimensão física da romaria. Os pés que percorrem quilômetros de estrada, os corpos marcados pelo esforço e a determinação de homens e mulheres que seguem movidos pela fé.
Cada quilômetro percorrido revela a resistência de uma tradição construída com trabalho, devoção e coragem.
Entre panelas, fogões improvisados, mãos que preparam os alimentos e mesas compartilhadas, a romaria encontra um dos seus espaços mais importantes: o cuidado. Neste episódio, acompanhamos a fartura que alimenta os corpos após longos dias de estrada, mas também fortalece os laços de comunidade, partilha e gratidão.
Entre rezas, bênçãos e refeições preparadas coletivamente, cada alimento carrega um gesto de acolhimento e uma demonstração de fé.
Há momentos em que a caminhada silencia. As vozes se unem, as mãos se encontram e a estrada se transforma em lugar de oração.
Neste episódio, acompanhamos as rezas, bênçãos e ritos que marcam a jornada dos carreiros de Orizona rumo a Trindade. Práticas transmitidas entre gerações, que fortalecem a fé, renovam promessas e mantêm viva uma tradição enraizada na cultura popular goiana.
Cada prece fortalece os laços entre as pessoas, a comunidade e a espiritualidade que move essa caminhada.
Depois de mais de 200 quilômetros percorridos, a estrada encontra seu destino. Chegam os carros de boi. Chegam os animais. Chegam os carreiros de Orizona. Chegam as lágrimas, os agradecimentos, as promessas cumpridas e os corações fortalecidos pela fé.
Neste episódio, acompanhamos a emoção da chegada a Trindade, momento em que cada passo percorrido ganha significado e cada história encontra seu encontro com o sagrado.
O fim da jornada. O cumprimento de uma promessa. A certeza de que a fé continua caminhando.
No capítulo final de “Quando a Fé Caminha”, encontramos os rostos, os sentimentos e as reflexões de quem segue mantendo viva essa tradição.
Nas palavras de Miguel Corrêa, Guilherme Silva e de tantos outros carreiros, permanece a certeza de que a caminhada não termina quando a estrada acaba.
Ela continua nas memórias, nos ensinamentos compartilhados, nos laços construídos ao longo do percurso e na esperança de um novo encontro.
Este episódio é uma homenagem às gerações que vieram antes, às que hoje sustentam essa tradição e às que ainda virão. Ao longo de 11 capítulos, percorremos caminhos de terra e asfalto, acompanhamos rezas, encontros, despedidas, desafios e celebrações. Registramos histórias que nascem em pequenas comunidades, mas que carregam um valor imenso para a memória, a identidade e o patrimônio cultural de Goiás.
A todos que caminharam conosco, o nosso agradecimento. Essa série registrou uma jornada até Trindade e foi também um encontro com pessoas, histórias e afetos que merecem ser lembrados. Nos vemos em breve! Até a próxima caminhada.